O Novo libertarianismopor Jeffrey A. Tucker

Eu tive um final de semana fascinante na companhia de algumas centenas dos mais inteligentes e visionários estudantes que eu pode encontrar em anos. Foi muito inspirador ver como esses jovens estão se preparando para enfrentar um ambiente econômico e social que é radicalmente diferente daquele do tempo dos seus pais.

Em vez de derrotismo e desespero, eu detectei uma intensa dedicação à criatividade, ao empreendedorismo e à viver uma boa vida apesar da existência de um sistema dedicado a prejudica-los. Eles estavam reunidos para a Conferência Regional do estado de New York do EPL, uma organização que está absolutamente “bombando” no seu crescimento e influência ao redor do mundo. Minha viagem e discurso de encerramento foram possíveis graças à Foundantion for Economic Education, uma parceira inovadora do EPL e de outros estudantes. Essa foi apenas uma das quatro conferências que estavam ocorrendo naquele mesmo dia!

O que no princípio parecia ser um movimento político está se tornando um movimento social de jovens determinados a reivindicar a liberdade humana como um princípio fundamental nas suas vidas e carreiras. Muitos dos estudantes com os quais conversei, por exemplo, estão pensando seriamente em lançar start-ups e ativamente investindo para que isso se torne realidade. Eles estão construindo redes de talentos e compartilhando ideias. Eles estão sonhando com vidas independentes e de sucesso – em seus próprios termos.

Então aqui segue um plano, o qual muitos já fora da faculdade estão colocando em prática.  Sua cultura e formação acadêmica são exploradas com sucesso em vários empregos, com os quais pagam o aluguel e a conta de celular, mas não são suas carreiras ou sonhos. É simplesmente algo que eles fazem. Pensando dessa forma, mesmo um emprego terrível pode ser suportado com senso de humor.

Enquanto isso, nas noites e nos finais de semana, eles trabalham nos seus reais objetivos. Eles estão programando apps, trabalhando em serviços digitais, pensando em novas ideias e desenvolvendo modelos de negócios. Eles estão adquirindo novas habilidades e complementando sua educação. E são muito cuidadosos com o dinheiro, estão totalmente cientes dos perigos das dívidas devido a experiências negativas na faculdade.

Pense em apartamentos sujos com quatro ou cinco pessoas vivendo de macarrão enlatado e cerveja barata. É onde os meganegócios do amanhã estão sendo pensados. Esses jovens parecem viver em dois níveis: sua vida convencional, a qual veem como algo temporário; e sua vida revolucionária, a qual veem como sua real paixão e seu verdadeiro caminho para o futuro.

Eu não me lembro de ninguém fazendo isso quando eu estava na faculdade. Nós confiávamos que o sistema fosse cuidar de nós, e nosso trabalho era se adequar a tal realidade. Esses jovens não pensam assim. O sistema existente é algo que utilizarão, mas somente no caminho para ignorá-lo com inovações e empreendimentos destinados a mudar o futuro.

Na verdade, é um grupo comercialmente astuto. Eles veem o empreendedorismo como uma forma de mudar o mundo. As ferramentas que todos os dias eles usam para explorar o mundo – comprando coisas, passeando nas cidades, planejando viagens, falando com amigos e famílias – foram disponibilizados pelo setor privado. O governo não contribui em nada para as suas vidas, a não ser com estresse e irritação.

E mais, entre esses libertários, existe pouca esperança que a mudança política seja uma opção viável. Qual seria o mecanismo de mudança? Um sistema de dois partidos? [N.R.: O autor se refere ao fato que nos EUA apenas dois partidos tem chances reais de vencerem a eleição. Não muito diferente do Brasil] As tendências na política são inexoravelmente piores, não importando as promessas. As tendências na vida comercial dirigem-se ao progresso todos os dias. Qual parece ser o melhor caminho? Tendo viajado pelo mundo algumas vezes, eu vejo dentro do EPL o surgimento de uma nova forma de libertarianismo – algo mais intelectual e estrategicamente sofisticado do que o existente no século passado.

Primeiro, entre esses jovens, existe uma grande abertura a ideias radicais que repensam a relação que a política tem como o mundo. Rejeitar o coletivismo fora de moda do regime atual é apenas o começo. O que dizer sobre o anarquismo? Se o Estado é inútil e decadente, o anarquismo torna-se um quadro intelectual operacional por meio do qual se pode entender o mundo: um contraste em relação às antigas gerações que romantizavam um passado mítico da liberdade protegida pelo Estado constitucional.

Enquanto a esperança que o Estado pudesse algum dia purificar-se desapareceu, uma nova esperança na liberdade surgiu. Da mesma forma, pensamentos mais duros sobre produção sem propriedade intelectual, cidades e bancos virtuais, e novos padrões de comunicação social estão na mesa. Essas visões não são negativas, mas sim esperançosas: Burguesas, mas populares. De princípios, mas bem amplos. Intelectuais, mas também intuitivas.

Segundo, existe um novo padrão de aprendizado nessa geração. Considerando que os libertários do passado aprenderam por meio dos textos clássicos, grandes livros de teoria integrada, mas contida, esses jovens extraem informação de uma hora de noticiário, memes, vídeos, posts do Facebook, textos, fóruns, tweets e hangouts do Google. Não existe algo como um setor de ideias protegido, muito menos de um cartel de informações. Essa configuração produz mentes ágeis e mais amplas com uma postura menos defensiva.

Por essa razão, a inclinação ideológica pega a retórica e linguagem de muitas fontes. A camiseta mais popular dentro do EPL é: “Paz, Amor e Liberdade”. Minha própria camiseta da conferência é uma nevasca de poucas palavras: Tolerância, Compaixão, Empreendedorismo, Amor, Razão, Comércio, Riqueza, Liberdade e Criatividade.

Então você pode ver o que está acontecendo aqui. Finalmente está ficando claro para os libertários que eles não possuem nenhum modelo para impor ao mundo, nenhuma fórmula predefinida para melhorar a sociedade, e, por isso, nenhum dogma estrito sobre como as coisas deveriam ou não funcionar em um mundo de liberdade. O objetivo é tornarem eles próprios e a sociedade independentes das correntes do estatismo e da arregimentação, permitindo a experimentação, evolução, tentativa e erro – uma agenda que se origina da convicção que somente pessoas livres podem descobrir o caminho correto para o seu futuro.

Terceiro, a liberdade para esses jovens não é somente um ideal político, algo que diz respeito ao Estado e às questões civis, mas que, de outra forma, não tem nenhuma aplicação social. Do mesmo modo que os liberais clássicos, esses jovens estão dedicados a descobrir a relação entre o ideal político e suas vidas particulares. Eles querem encontrar formas pelas quais verdadeiramente podem implementar a ética de liberdade, vivendo com esse ímpeto moral e empreendedor. Então, por exemplo, se você pode usar um serviço de táxi de livre mercado em vez de um governamental, você deveria. Se você não acredita em “propriedade intelectual”, você deveria publicar sem isso. Se você acreditar que a cooperação com outrem é a essência do desenvolvimento social, você deveria procurar ser uma pessoa cooperativa. Se o empreendedorismo é a força primária por trás do progresso econômico, você deveria procurar contribuir para tal fim.

Quarto, existem coisas não-negociáveis (aceitáveis), e não somente no que tange à proibição do uso da força. Como uma extensão do ponto supracitado, essa geração estabelece uma recompensa para o pensamento civilizado e comportado que inclui uma exclusão absoluta de fanatismo em todas as suas formas. Atitudes racistas, sexistas e anti-gays não são somente contra produtivas, mas personificam o oposto à tolerância que o liberalismo antigo identificou como o principal baluarte contra a opressão estatal. Isso necessariamente significa uma identidade especial com grupos que foram vítimas da opressão estatal e permanecem sendo em muitas partes do mundo.

Então, por exemplo, é verdade que em nosso tempo muitas feministas buscam privilégios junto ao Estado, também é verdade que muitas minorias raciais (e pessoas de todas as raças e classes) buscam auxílio no Estado. Mas a situação real e o ímpeto dos movimentos feminista e anti-escravocrata, historicamente entendido, diz respeito a conceder autoridade a todo membro da família humana agir livremente dentro de seu direito.

Se amamos o capitalismo, nós devemos lembrar que ele foi responsável por muito desse fortalecimento, mais do que qualquer mudança política. Por essa razão, nós devemos abraçar os ideais do feminismo da mesma forma que abraçamos a causa anti-escravocrata. É nossa causa, nosso banner, nossa história, nosso movimento. Nós nunca deveríamos ter dado isso para a classe opressora.

Quinto. Há uma geração de pensadores de mente aberta que estão cheios de esperança em relação ao futuro, e acertadamente. O mundo digital abriu novas fronteiras para eles fazerem a diferença nas suas próprias vidas e no mundo em si. O espaço no qual é possível que isso aconteça é ilimitado, assim como são as possibilidades. Apesar de todos os despotismos do mundo atual, o ambiente digital torna possível um novo caminho de progresso no qual a expressão individual e comunitária pode ter novas formas fora do alcance do poder governamental.

Veja que o próprio EPL não teria alcançado tamanho sucesso sem todas as ferramentas de mídias sociais que permitem sua organização.

Tudo isso se cristalizou em mim nesse final de semana. É um afastamento total da escuridão do passado e um novo paradigma para o futuro. Reflete a confiança de que a liberdade é correta e efetiva, não somente como filosofia política, mas também como um princípio pessoal que nos ajuda a alcançar etapas mais avançadas de realização pessoal e bem estar.

Obrigado, EPL e FEE por existirem e oferecerem a plataforma e inspiração para a construção de um mundo novo e melhor do que outrora.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro.